segunda-feira, 4 de outubro de 2010

Educação e Exemplo

Queria tratar aqui de um assunto que é sempre muito debatido, que é a educação dos filhos. Mais especialmente sobre a nossa vida como a maior e mais eficaz mestra dos nossos filhos. É de conhecimento comum que os filhos se espelham muito nos pais, e que na idade adulta vêem-se repetindo tudo aquilo que viam seus pais fazerem. Isso aí: tudo aquilo que viram seus pais *fazendo*. Embora quase todos os pais comprometidos com a educação saibam disso, não são todos que são comprometidos com a auto-educação. O que isso quer dizer em termos práticos? Que não adianta falar para o filho não beber, por exemplo, e entornar copos de cerveja na própria boca. Ou ensinar que refrigerante faz mal à saúde, com uma garrafa de coca-cola na geladeira à disposição dos "adultos da casa". Não adianta proibir o filho de assistir desenhos violentos, e depois ir na locadora alugar filmes de vampiros (que estão na moda, infelizmente) e guerras.  Não adianta vetar o acesso do filho à literatura de gibis modernos e passar horas à fio lendo livros de arte duvidosa, com cenas de violência explícita, por mais românticas que sejam. Agindo assim não estaremos ensinando nossos filhos que tudo isso não é bom para a saúde integral dele, por mais palavras maduras e pedagogicamente embasadas que lhes dizemos por anos à fio. Estaremos sim, ensinando à eles a serem os mais velados e cristalinos hipócritas, porque o mestre silencioso chamado *exemplo* tem um eco muitíssimo mais forte que todas as palavras que lhes dizemos ao longo da vida, e esse mestre estará dizendo a ele que deve-se ensinar uma coisa e fazer outra.

Mas então poderíamos alegar para nos justificar: "ah, mas meu filho não me vê bebendo, nem vendo os filmes e menos ainda lendo". Ora, mas isso não seria sermos hipócritas conosco mesmos também? O filho pode não ver, mas *nós saberíamos* que estaríamos vivendo uma vida de mentiras, e por consequência ensinando os filhos a viverem dessa forma tão triste, porque independente dos filhos verem ou não verem, eles estão *inseridos* nessa família, convivendo, crescendo, sendo educados, interagindo e respirando dentro desse lar. Mesmo que ele não veja com seus olhos físicos, ele está mergulhado num ambiente que exala hipocrisia e mentira, e é sim influenciado de forma sutil e concreta.

Não adianta nós educarmos nossos filhos de uma forma restrita, politicamente e ecologicamente correta, se não *vivermos* de forma tão restrita quanto aquela que pregamos. Nossos filhos e a verdadeira educação deles deve valer mais para nós que refrigerantes, bebidas alcoólicas, cigarros, filmes e livros que são lixos culturais, ao ponto de renunciarmos à tudo isso se realmente acreditamos que não são boas coisas, tanto que ensinamos isso à nossos filhos.

Do meu ponto de vista, um pai que bebe muita cerveja e acha que beber é a melhor coisa da vida, e por isso molha a chupeta do filho no copo de cerveja dizendo à ele desde pequeno que ele tem que aprender as coisas boas da vida, apesar de estar totalmente errado em termos psicológicos e físicos, ele está sendo mais honesto que aquele pai de ensina o quanto a bebida é ruim e bebe depois, escondido ou não dos filhos. Porque embora ele esteja educando seu filho à ser um futuro alcóolatra físico e psicológico, ele está ensinando o que realmente acredita que é certo. Ele pode estar sendo um péssimo pai, mas está sendo um bom educador, dentro do que ele acredita ser uma boa educação. Embora falhando num aspécto realmente grave, ele está sendo honesto, errando por ignorância, não por negligência.

E nós quando não vivemos o que pregamos, quando não damos à nossos filhos nem mesmo o exemplo de honestidade, estamos sendo péssimos pais e péssimos educadores, errando por negligência, já que acreditamos que o que fazemos de errado, é mesmo errado. Estamos ensinando à eles que bebida não é bom, mas que escondido podemos beber. Estamos ensinando que bebidas faz mal à saúde *dos outros*, porque da nossa não deve fazer, já que embora ensinemos para os outros que é ruim, continuamos bebendo. Quando educamos nossos filhos assim, nós estamos falhando em todos os aspéctos, porque repercurte no físico (ele fará escondido, como viu os pais fazerem), no psicológico (mentir para si mesmo é uma das mais graves doenças psicológicas), no emocional (quem consegue conviver bem usando mil máscaras para se apresentar diante da sociedade?) e sobretudo moral (a hipocrisia foi o flagelo mais energicamente combatido pelo Cristo).E claro, estou colocando exemplos materiais, mas falo de todo tipo de vício, os morais também.

Quando nos tornamos pais, Deus não nos pede apenas que guiemos para o bom caminho um de seus Filhos. Ele nos convida também à irmos, junto com nossos filhos, para esse bom caminho. Como podemos segurar nosso filho pela mão na estrada de uma vida digna, boa, saudável e eticamente correta, se não caminharmos nessa mesma estrada junto com ele? Nós temos que perder a idéia de que, só porque Deus colocou criaturas sob nossa custódia, significa que estamos preparados para os educar sem que precisemos de nenhum ajuste ou mudança de vida. Deus educa-nos, enquanto educamos nossos filhos... Se Ele nos mostra o que é melhor para nossos filhos, mostra também o que é melhor para nós. Se conseguimos ver, entender, debater e até criticar quem vive de uma forma que achamos ruim, então é porque estamos mais que prontos à *viver* em todos os detalhes, aquilo que vemos, entendemos e debatemos que é o melhor.

Emmanuel, mentor de Chico Xavier, tem uma frase excelente sobre isso: "A palavra convence, mas o exemplo arrasta". E é assim. Com a palavra podemos até fazer nossos filhos entenderem no racional tudo aquilo que pregamos ser bom para eles, mas é com a força inexorável do exemplo, que os arrastamos para a saúde ou para a doença, dependendo exclusivamente da forma como vivemos.

Gandhi também tem uma colocação para isso: "Aquele que não é capaz de governar a si mesmo, não será capaz de governar os outros".

Em suma, é vivendo bem que educamos bem. É nos educando conforme educamos nossos filhos, que podemos ter mais esperança de um dia não dizermos a famosa frase: "Onde foi que eu errei?" É vencendo os nossos próprios vícios, que ensinamos nossos filhos a terem hábitos saudáveis. É renunciando à tudo aquilo que cremos ser ruim para nossos filhos, que vamos realmente ser dignos do papel que tentamos desempenhar com tanta dedicação e amor. Não basta amá-los, temos que nos amar também, e vivermos tudo aquilo que desejamos que eles vivam, para serem mais felizes e mais saudáveis. Não é fácil, e certamente vamos falhar muitas vezes, mas eles também verão que estamos tentando, e aprenderão outra linda e valiosa lição: errar enquanto tenta acertar e recomeçar sempre, sim. Desistir de investir no bem de si mesmo e daqueles que amamos, nunca.



4 comentários:

Joyce Damy Mobley disse...

Lindo artigo, perfeito!
Uma das coisas mais difíceis de se trabalhar num consultório são as mensagens duplas deixadas pelos pais, principalmente as mensagens subliminares.
Educação não é uma questão de modismo, mas de coerência, de seriedade, de compromisso!
Sempre digo que crianças nascem perfeitas e nosso grande trabalho é não estragá-las. Podemos e devemos moldar o que já existe nelas, mas antes de mais nada devemos nos trabalhar incansavelmente para sermos dignos de termos tais preciosidades sob nossa guarda neste tempo e neste espaço.
Sim, não há nada mais óbvio e atordoante para uma criança do que a hipocrisia dos pais! Somos, ou deveríamos ser, portos seguros! Dizemos confia em mim... Isso é sério, muito sério, porque eles realmente confiam desde dentro de seus corações que são puros; e, confiam tanto que vão MESMO repetir cada coisa que aprendem!
É muita pretensão dos pais em acharem que podem educar antes de se educarem; escolher as melhores escolas quando a melhor escola é o lar que cada um cria para acolher e, ao menos, não estragar as almas que chegam a este mundo através de nós. Sábio também é lembrar que nossos filhos trazem ensinamentos que nos são preciosos; quem não souber ouvir e aprender com os filhos também não saberá educar.
Lindo, lindo artigo!
Abraços de brisas perfumadas-Joyce

Luciana Luz disse...

Oi minha amiga, que bom sua visita! :)

É isso mesmo, porque nós não podemos, sob nenhuma hipótese, sermos hipócritas com nossos filhos, porque isso destrói todo o desenvolvimento dele, tanto no sentido de porto seguro como vc falou, como no sentido de construção do ser, que ele precisa fazer com nossa ajuda. Educar os filhos com a nossa hipocrisia é o mesmo que construirmos castelos com material frágil e inadequado. Um dia ele vai ruir, e as consequências desse nosso erro educacional grave, vai recair sobretudo sobre a felicidade, a saúde e o bem-estar daqueles que mais amamos, e por quem cremos que demos a vida. Penso que dar a vida para um filho é justamente se transformar, dia-a-dia, no modelo de saúde integral (e isso inclui ser autêntico, não modelos sociais de educação) que ele precisa aprender a construir em si mesmo. É muito simples, como todo conceito sábio: se queremos criar filhos honestos, temos que ser honestos. Se queremos criar homens saudáveis, temos que ser saudáveis. Se queremos criar pessoas que lutarão por seus sonhos, temos que lutar pelos nossos também.
Não tem fórmula de especialista A, B ou C. Nem tem programas educacionais elaborados por doutorados em pedagogia. Nem aquelas regrinhas com abreviações de palavras muito modernas. Tem é *vivência* no dia-a-dia, *exemplo* de conduta, *coerência* entre ensinar e viver o que ensina. Educação é aprender a ser um espelho límpido e porto seguro, sobretudo de limpidez e segurança moral. É o caráter dos pais que constrói os filhos, não programas disso ou daquilo que os pais aprendem nos livros e acham que devem aplicar aquilo *só nos filhos* com muita disciplina e pronto. Sinceramente amiga, para mim os pais que criam seus filhos assim, com rígidos conceitos pedagógicos, disciplinarmente aplicados o tempo todo, criam neuróticos, não homens de bem.

Obrigada pela visita e comentário! Eu te admiro muito, como não canso de dizer, então é uma honra para mim tuas palavras!
Eu quase não escrevo aqui, escrevo mais naquele meu blog que vc achou em primeiro lugar, o Satyagraha (http://jyotiprema.wordpress.com), mas lá só escrevo sobre espiritualidade.
Mas ando inspirada com umas idéias e vou tentar ir escrevendo aqui também. :)

Um beijo e abraço bem apertado! :)

Joyce Damy Mobley disse...

Eu sempre leio o que você escreve por lá, mas há muitos anos abandonei os caminhos mais tradicionais da espiritualidade - até mesmo os menos tradicionais, já que posso contar nas mãos as vezes que entrei numa igreja, ou centro, ou templo. Resolvi que ia encontrar Deus dentro e fora de mim em cada pessoa em cada sorriso, em cada coisa boa em cada coisa ruim, que iria descobrir como ele é tudo e como esse sentido faria " o sentido" em tudo que eu era e escolhia. Decidi que todo o conhecimento já existia e que eu precisa ouvir o universo, e não ler palavras, ou ouvir as palavras que saiam da boca de tantas pessoas...
Assim, não batizei meus filhos pq não acredito em pecado que não seja o de limitar quem vc realmente é; acredito no caminho ético, mas não na ética da hipocrisia. Eles aprenderam solidariedade, amor, respeito por si mesmos, pelos outros, pela natureza, compartilhar,e tantas coisas que são simples: que Deus está em tudo e que nem é preciso pedir nada pq ele ouve e sabe pq É. Que ele nem mesmo precisa da crença deles pq aquilo que É, sempre vai SER, é isso é tanto, mas tanto, que prescinde da crença de tantos que desejam ter a patente do verdadeiro Deus; isso sempre foi muito triste para mim, desde criança.
Bem, meus filhos já não são crianças... São adultos com ideais de um mundo, universo, melhor. Cada um deles colabora e escolheram profissões em que o ser humano é mais importante do que coisas.
Nunca os proibi de nada no que concerne à escolha de caminho e crença, mas saíram muito parecidos comigo.
Depois de mais de trinta anos voltei ao templo para a passagem do Mestre Lahiri Mahasaya e foi uma delícia: como estar voltando para casa depois de muito tempo.
Somos todos mestres e aprendizes, precisava me lembrar disso em todas as minhas células; lembrei e voltei. Abraços de brisas sempre perfumadas-Joyce

Luciana Luz disse...

Em parte eu sinto exatamente como vc a questão da espiritualidade, já que a religiosidade fala mais alto em mim que a religião propriamente dita. Mas uma parte de mim também sente de falta de estar em lugares onde há pessoas engajadas em alguma coisa que as engrandeçam, então nesse ponto sim, eu gosto de frequentar os centros espíritas, e me entitulo como espírita porque o sou de fato, já que tenho como convicção indelével a vida após a morte, o mundo espiritual, reencarnação, comunicabilidade entre os mundos, enfim, os conceitos que, quando aceitos pela criatura, transformam-na no que Kardec começou a chamar de espírita. Mas já há muito tempo que não penso estar a doutrina espírita com toda verdade, ou que oque kardec elaborou seja completo, embora como síntese ele tenha chegado bem perto, no que diz respeito ao conhecimento já adquirido por essa humanidade, que à propósito é quase nada diante de Deus. Mas acima de tudo isso, acima das filosofias, das religiões, das doutrinas, está o amor à Deus e à toda a criação. Acima de qualquer denominação que eu me encaixasse mais (ou não) nessa passagem de tempo e espaço, eu quero ser sempre um ser do amor. O mais devotada à Deus que eu puder, amando-O acima de tudo e todos, incluindo à mim mesma. Ter fé cada vez mais presente e pulsante em Seu Amor e Onipresença em toda Criação. Deus está acima de tudo para mim, esteja Ele onde estiver, sob a face ou forma que for, e é para encontrá-lo cada vez mais, para sentí-lo com cada vez mais intensidade, que luto todos os dias para tentar ser melhor, para ter mais condições de Lhe sentir e servir. Não é fácil, porque nosso ego é ainda muito forte, e dói bastante querer tanto estar perto de Deus, e se ver ainda tão, tão longe. Mas nunca devemos desistir de Deus, ou melhor, de nós mesmos, posto que somos Sua centelha, que deve brilhar cada vez mais, para que Ele possa se aproximar mais de nós. É uma estrada de mão dupla... Quanto mais nos amamos e iluminamos, mais permitimos que Ele cresça em presença em nós e à nossa volta. Amando-O, nos amamos e à toda criação. Não tem como amar à Deus, sem amar tudo que Ele criou. É nisso que acredito e sinto acima de tudo, e para essa crença e sentimento profundo que tenho, que deposito os meus mais intensos esforços para ir trabalhando meu ego, ainda imenso. É muito difícil, porque o ego está escondido em escaninhos que vamos descobrindo pouco à pouco, em processos dolorosos. Quanto mais lutamos e andamos, maior de mostra a estrada à nossa frente. Teoricamente deveria ser um trabalho desestimulante, porque quanto mais se trabalha, mais se vê trabalho à ser feito. Mas por algum mecanismo que deve ser coisa de Deus, quando mais se trabalha, mais o trabalho se mostra gratificante, e mais forças encontramos para continuar. Cada vez a matéria perde mais o sentido, e a espiritualidade ganha mais valor. E aí entra-se num outro ponto, que é no que estou agora: como viver no mundo sem ser do mundo, no sentido de: como viver o que te dá prazer no mundo e ao mesmo tempo fazer parte do mundo que não te dá mais nenhum prazer. É nisso que estou trabalhando nesse momento da vida.
Enfim, é isso tudo! escrevi demais, pra variar! :)
É bom demais conversar contigo! Um dia tínhamos que falar por telefone! Vc mora no rio também?
Beijo minha amiga linda! :)

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